“SÍTIO DE GENTE FELIZ”

“SÍTIO DE GENTE FELIZ”

A melhor tasca do Mundo? Pois que se calhar… 😉

O nome do restaurante está entre aspas porque não é bem um nome aquilo que vemos nesta placa na parede desta pequena tasca que descobrimos por um feliz acaso. Esta placa não tem propriamente um nome, tem antes uma afirmação: este é um sítio de gente feliz. Gente feliz na cozinha e a servir às mesas, gente feliz sentada às mesas… e gente feliz como nós, que descobrimos um segredo maravilhoso, um restaurante simples e tão fantástico que ainda não nos tínhamos levantado da mesa e já estávamos a combinar quando é que voltávamos.

Nos dias que correm, é quase impossível que exista um espaço aberto ao público sem qualquer referência em algum lado. Mas acontece, e por isso é que este “Sítio de Gente Feliz” é tão espectacular! Porque podem procurar no Facebook, no Instagram, no Zomato… enfim, podem até procurar no Google e não vão encontrar referência nenhuma. O que significa que lá vamos ter porque nos dizem que este pequeno pedaço de paraíso existe. E nós passamos a mensagem também. 😉

O sítio fica em Vila Fria, na zona de Oeiras. Chegando a esta pequena localidade, é tentar encontrar o Grupo Cultural (fica relativamente perto do Rui dos Pregos, podem também ter isso como ponto de referência). O Google Maps leva-vos mais ou menos até à zona. O restaurante fica dentro do Grupo Cultural, com a esplanada a ficar nas traseiras, passado um portão branco. Nesta altura quase que me apetecia desenhar um mapa do tesouro, e a analogia é muito boa! Porque este é mesmo um tesouro escondido!

À frente deste “Sítio de Gente Feliz” está o Miguel Gonçalves, que até há pouco tempo estava à frente de outro restaurante na zona, chamado Cozinha 16. Não sei se lá não era feliz, mas aqui é de certeza! E essa felicidade transparece para a comida que nos é servida, sem recurso a qualquer tipo de menu. Quando nos sentamos na mesa – na esplanada, porque o dia estava solarengo – só nos perguntam o que queremos beber e se podem servir à vontade. É a primeira vez que cá vimos, mas é como se fizéssemos parte da casa. Se calhar porque partilhamos este (maravilhoso) segredo.

E as coisas começam a aparecer na mesa quase sem darmos por isso, porque estamos na conversa. O pão, o azeite com um toque de balsâmico, o prato com chourição e queijo de ovelha. Porque estamos neste registo, o registo de tasca, onde impera a comida tradicional sem grandes cuidados com empratamentos. Estamos no registo da comida boa, com alma.

Por isso, os pimentos padrón que nos servem a seguir trazem morcela de arroz e a conjugação é assim uma coisa maravilhosa. E simples, muito simples, como são todas as coisas boas. Tão perfeita que acaba rapidamente, quase sem darmos por isso, porque no segundo seguinte chegam à mesa mais três pratinhos cheios de coisas boas: umas belas iscas, uma batatas bravas viciantes e uma saladinha de favas com entrecosto fantástica! Nem precisamos de pedir mais pão para ir a todos os molhos, porque ele vai aparecendo na mesa, sempre acompanhado por um sorriso, uma palavra amiga, uma piada e um genuíno “ficar sem jeito” quando dizemos que estamos a adorar.

E estamos a adorar, é impossível não adorar isto! Só que não estávamos minimamente preparados para o que ainda estava para vir… Porque a seguir vem uma travessa com um coelho inteiro, assado no forno, mas bem assado ao ponto de ser o coelho mais tenro que já comi e, ao mesmo tempo, com o exterior quase caramelizado e crocante. Acompanhamentos fancy? Nada disso! Couves, boas, bem temperadas, excelentes. Um prato de almoços de família, comida de conforto, servida como se estivéssemos em casa, na aldeia. Lá está, a simplicidade das coisas boas.

Nesta altura já era só gula, porque entre entradas e o fantástico coelho, não havia fome para muito mais. Só que um “Sítio de Gente Feliz” tem de deixar as pessoas felizes… e não há maior felicidade do que aquela que temos com a comida. A boa comida. Por isso, passamos do coelho para o porco, neste caso um rabo de porco acompanhado por pedaços de aipo, para lhe cortar a gordura. Não só esta combinação resulta na perfeição como isto é outro prato fenomenal! Mesmo aqueles na mesa que torceram o nariz quando viram o prato a chegar, lamberam os dedos depois de o começar a comer. Tudo aqui é fantástico, o sabor, o tempero, tudo! É complicado arranjar adjectivos que descrevam um prato que é tão nosso e tão perfeito, por isso deixo apenas a fotografia. Porque o sabor fica na nossa memória.

E depois do porco, faltava ainda outra proteína… mas esta chegou à mesa em jeito de desafio. “Então, já terminaram? Não vai mesmo mais nada?” ao que a nossa resposta foi que não, porque a quantidade realmente já tinha sido demais. Ainda que a qualidade fosse tão fora de série que hesitámos um bocadinho na resposta. Ora, talvez por isso, o desafio do Miguel foi trazer-nos só um “pequeno petisco” para terminar, só uma pequena brincadeira. Isto:

Mais uma vez neste texto, faltam-me palavras para descrever esta carne. Se calhar é mais fácil de perceber se escrever que desapareceu aí em dois minutos, numa mesa onde quatro pessoas já estavam completamente cheias. Mas estava tão tenra, tão no ponto, tão maravilhosamente temperada (puxada ao sal, claro, como se deve servir a carne!) que foi impossível resistir! Se não fosse tudo o resto até ali, tinha comido no pão, como sobremesa, mas naquele momento já não dava… Agora a carne? Sim, essa desapareceu num ápice!

Numa outra visita houve outras coisas boas, porque realmente variam consoante aquilo que o Miguel vai buscando ao mercado. Podem, por exemplo, encontrar um fantástico Cachaço de Porco cozinhado em vinho tinto… e servido com uma “Feijoadazinha” a acompanhar. Sim, só isso! Tudo perfeito, tudo com um sabor fenomenal, servido por amigos para amigos, cozinhado com amor.

Seja quando forem que lá vão, só passadas quase duas horas é que vão perceber que este almoço de dia de semana vai sempre prolongar-se por muito mais do que a vossa hora de almoço normal. E isto é o que acontece quando estamos a fazer qualquer coisa que nos dá prazer: perdemos a noção das horas! O que, no fundo, é uma espécie de “aviso à navegação”: venham almoçar ao “Sítio de Gente Feliz” com tempo, sem pressas. Porque aqui o tempo passa sem darmos por isso, porque estamos felizes.

As sobremesas também vão variando de dia para dia, e o mais difícil é conseguir comer ainda alguma coisa, depois de tudo o que comemos até lá. Ora pode haver um bolo de tiramisú, muito bom, ou então uma sericaia caseira, sem ameixas nem coisas dessas, ou ainda uns simples morangos. Novamente, coisas simples, caseiras, perfeitas. Coisas que nos adoçam a boca e, acima de tudo, nos fazem desejar mais uma vez não ter ainda uma tarde de trabalho pela frente…

… o que ainda fica mais difícil quando o Miguel nos traz à mesa uma garrafa sem rótulo e quatro copos pequenos. Uma “coisinha boa” para terminar o almoço, vá lá. Malta, quem me conhece sabe que qualquer sítio que termine uma refeição a oferecer-me uma aguardente caseira vai ficar para sempre no meu coração. Especialmente se for boa! E esta que nos trouxeram neste sítio é do caraças! Porque se bebe bem, desliza de forma muito suave na garganta, mas percebe-se que é só fachada! 😉

Ora, não pedimos nada, nenhum dos pratos. E as minis que acompanharam o almoço foram simplesmente sendo repostas, quase sem darmos por isso. Por isso, estávamos a zeros em relação à conta. Em conversa no fim do almoço, disseram-nos “20€ por pessoa”. E, mais uma vez durante este almoço, ficámos embasbacados! O preço é absurdamente baixo para tudo o que nos serviram, em quantidade e especialmente em qualidade! Não sei se é sempre assim e, honestamente, não me importa assim tanto, porque tudo aquilo que comi merecia muito mais! Mas talvez por isso mesmo isto seja um “Sítio de Gente Feliz”: gente feliz porque faz o que gosta sem pressões… e gente que sai daqui feliz, porque teve uma experiência extraordinária.

Não sei se é um restaurante, uma tasca, uma esplanada ou apenas um sítio. E muito sinceramente, não quero saber. O que eu sei é que este pequeno espaço nos proporcionou uma das melhores experiências que já tivemos, um almoço inesquecível. Um almoço que começámos logo a decidir quando repetíamos… ainda quando íamos só no coelho! Não há menu, nada é fixo, cada dia há pratos diferentes que dependem daquilo que vão buscar ao mercado. O que torna toda esta experiência ainda mais entusiasmante!

E um aviso final: esta malta quer mesmo continuar a ser feliz. Por isso, este espaço só abre aos dias de semana e ao almoço. Sim, leram bem! Podem tentar outra coisa, mas para isso precisam de ir lá e tentar convencer o Miguel e o resto do pessoal a fazer uma coisa diferente. Ou então, muito mais simples, façam como nós planeámos fazer já na próxima semana: sigam o GPS, tirem a tarde e arrisquem. Este “Sítio de Gente Feliz” vai fazer de vocês pessoas mais felizes. E pessoas que vão querer voltar rapidamente, acreditem!

Preço Médio: 20€ pessoa (ou algo do género, mas com comida e bebida à vontade!)
Informações & Contactos:

Rua Carlos Paião, 23 | 2740-028 Porto Salvo | (sem telefone)
Nota: isto é a morada do Grupo Cultural, depois é entrar e procurar… e NÃO HÁ MULTIBANCO!

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