COLINAS DE LISBOA (Tryp Lisboa Aeroporto)

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Uma viagem… por sabores (inter)nacionais!

 

É difícil lutar contra estigmas, sejam eles quais forem. No caso da restauração, um dos maiores é o estigma do “restaurante de hotel” – restaurantes inseridos dentro de hotéis, que mesmo tendo porta directa para a rua, sofrem do problema de serem associados a uma serviço típico de hotel, uma decoração pouco cuidada e uma ementa virada para hóspedes (principalmente turistas) com preços altos. Nem sempre é assim, aliás, há casos em Lisboa onde os restaurantes de hotel são excelentes e conseguem até ter uma identidade própria muito forte. Ainda assim, mesmo com estas excepções, esse estigma mantém-se.

Ora, o Colinas de Lisboa consegue juntar ao estigma de “restaurante de hotel” outro ainda mais complicado: “hotel de aeroporto”. Porque é o restaurante do hotel Tryp Lisboa Aeroporto, o hotel mais próximo do aeroporto de Lisboa e, mesmo tendo em conta que está dentro da cidade, parece que fica completamente fora. Além disso, o tal estigma: “vamos jantar ali àquele restaurante do hotel no aeroporto?”

A verdade é que o facto de não ter uma entrada directa para a rua dificulta ainda mais as coisas, porque nos “obriga” a passar por dentro do hotel. E o próprio espaço não é o mais apelativo do mundo… não sei bem como explicar, mas tem aquele feeling de restaurante de hotel, tudo muito branco, quase desprovido de decoração (com a excepção de umas gravuras nas paredes a representar motivos lisboetas), a sala demasiado ampla, o mobiliário demasiado clássico… Não é um bom começo, sejamos honestos.

Mas tudo muda quando entramos no registo da comida, e muda radicalmente. Para melhor!

Ao almoço dos dias de semana, a opção de 99% dos clientes é claramente o buffet. Por 15,90€ (sem bebidas), é comer até cair, sendo que o buffet é muito diversificado e extenso. Uma óptima solução para quem trabalha na zona, porque não há mais ofertas, mas também para quem vem “de fora”, como acontece frequentemente.

Mas não era a isso que íamos, por isso olhámos e seguimos em frente. O nosso objectivo era provar alguns pratos da nova carta Outono/Inverno, que entrou em vigor no passado dia 8. Segundo o Chef Executivo Paulo Anastácio, esta carta é dirigida especialmente ao cliente nacional, tem por base a cozinha tradicional portuguesa mas acrescenta-lhe uns toques internacionais (a nível de ingredientes ou técnicas). Num restaurante inserido num hotel cujas estadias são basicamente todas de uma noite, é muito importante garantir que se apela aos clientes portugueses mas sem deixar de se manter interessante também para hóspedes de outras nacionalidades. Tem lógica e, mais do que isso, os pratos funcionam bastante bem.

Começamos por provar uma das novas entradas da carta, um clássico: folhado de queijo de cabra gratinado num recheio de marmelos, acompanhado de figos macerados em vinho do Porto e compota de abóbora e canela. Não há rigorosamente nada errado com esta entrada e tudo faz muito sentido junto, mas não é surpreendente. Pelo menos para nós – portugueses – que estamos habituadíssimos a ver estas combinações.

Felizmente as surpresas começam a aparecer a partir deste momento. Muito interessante o creme de ervilhas com ravioli de queijo da serra, boa conjugação de sabores, onde só tornava o creme um pouco menos espesso. Mas um prato muito bom mesmo. Assim como o pregado braseado com lagostim salteado, creme de aipo e cogumelos shitake, outro prato visualmente muito bem trabalhado e com todos os elementos cozinhados na perfeição. Destaque para o pregado e para os cogumelos, excelentes.

Continuamos ainda nos peixes e segue-se o risotto de ervas frescas com lombo de corvina e creme de crustáceos. Um nome demasiado pomposo e internacional para algo com sabores tão portugueses, mas os nomes têm de apelar à imaginação. O peixe cozinhado no ponto perfeito, um bom lombo, o creme bastante saboroso e um arroz excelente! Não tendo nada a ver, faz lembrar um arroz de tamboril… mas não tendo nada a ver 😉

Porque o objectivo é provar muitos dos pratos novos, passamos agora para as carnes. O bife da vazia de novilho braseado com molho de alecrim e manteiga, acompanhado de batatinhas salteadas, abóbora caramelizada e amêndoas é outro maravilhoso prato, onde há surpresas e confirmações: a carne excelente e no ponto era exactamente o que estávamos à espera, mas surpreendente é a abóbora caramelizada com amêndoas, que dá um toque rústico ao prato, ao mesmo tempo que o torna muito mais completo.

Ainda na carne, um prato onde não revemos de todo a base da nossa cozinha tradicional, mas onde percebemos toda uma inspiração do norte de África: as almôndegas de borrego com tâmaras, especiarias e couscous. Sabores muito apurados, aproximados do que comemos quando andámos por Marrocos, um molho excelente e umas almôndegas bem boas! O borrego pode não ser uma carne fácil, mas assim come-se muito bem.

Também mais exótico – e porque esta nova carta do Colinas de Lisboa tem muito mais opções vegetarianas do que a anterior – o caril de legumes e leite de coco. Já comi caril de legumes como opção vegetariana em alguns restaurantes e geralmente não sabe a nada. Mas isso não acontece aqui, porque este prato revela ter um forte sabor a caril, ligeiramente picante, e acima de tudo os legumes estão muito bem cozinhados, com diferentes texturas como se pretende. Vegetariano ou não, é um prato do caraças! 🙂

A degustação já ia longa, mas não podiam faltar as sobremesas, pois não? Aqui são apresentadas num tabuleiro, que é levado às mesas para que possamos escolher aquilo que queremos. Há muita oferta: mousses, panacottas, cheesecakes, e outras ofertas um pouco mais tradicionais, sempre com boa apresentação (porque se vêm todas à mesa, os olhos também comem). Ficamo-nos pela mousse de limão, bem equilibrada, com uma espécie de crumble de pistachio como topping que a torna ainda mais interessante.

Só no final, quando já íamos a sair, é que voltou o tal estigma e nos lembrámos onde estávamos. E isto é o que a comida – quando é boa – nos consegue proporcionar: faz-nos esquecer toda a envolvente para ficarmos apenas concentrados nos sabores. Sim, o Colinas de Lisboa é um restaurante de hotel (e de hotel de aeroporto), não há como fugir a isso. Mas esta nova carta de Inverno apresenta-nos pratos que podem perfeitamente competir com o que de melhor se faz em Lisboa, em qualquer tipo de restaurante. Os sabores, as texturas, a apresentação e a forma como as bases da cozinha tradicional são trabalhadas para se tornarem mais internacionais, mostram muito mais do que estaríamos à espera para este tipo de restaurante. E isso vale mais do que qualquer localização.

 

Preço Médio: 32€ pessoa (com vinho)
Informações & Contactos:
Aeroporto Internacional de Lisboa | Rua C, 2 | 1749-125 Lisboa | 21 842 5000

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