CANTINA ZÉ AVILLEZ

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Comida tradicional portuguesa… mas para turistas!

 

A cozinha tradicional portuguesa está recheada de receitas clássicas, geralmente muito simples. Mas por mais simples que sejam, são sempre maravilhosamente saborosas… quando bem feitas, claro. E aqui o “bem feito” não tem nada a ver com a confecção ser feita de forma correcta, mas mais com se sentir aquele toque familiar quando estamos a comer. Um toque que tem a ver com a experiência, com o saber, e que quase sempre encontramos nas tascas ou restaurantes tradicionais que passam de geração em geração.

E dito isto, eis que temos um dos novos projectos do Chef português mais atarefado, o José Avillez: a Cantina Zé Avillez. Onde, pela descrição do próprio, se serve comida tipicamente portuguesa, pratos tão nossos. E que, a nós,nos despertou logo uma enorme curiosidade, a par de um sentimento de desconfiança. Porque geralmente, quando um Chef sai do seu registo habitual, as coisas não parecem “autênticas”… e porque se o registo é o da comida tradicional portuguesa, então é preciso que ela seja tão genuína como nos restaurantes familiares a que vamos desde sempre.

Mas a curiosidade era maior que a desconfiança!

Esta Cantina Zé Avillez (onde o nome foi claramente pensado para ser mais próximo das “gentes comuns”) fica situada na recentemente renovada zona do Campo das Cebolas. A zona está engraçada, é verdade, e continua a estar povoada de restaurantes… cheios de turistas. É o novo terminal de cruzeiros, é a proximidade da Baixa e de Alfama, enfim, seja o que for, são turistas aos molhos. E, se é verdade que todos os restaurantes estão cheios, a Cantina Zé Avillez é o único que tem fila de espera à porta. São 14h30 e ainda assim esperamos meia hora por mesa.

A esplanada nada tem de diferente das outras ao lado, mas o próprio restaurante já é um bocado diferente. Estamos num registo de recriação de restaurante tipicamente português, daí os azulejos azuis no exterior, simples mas muito bonitos.

No interior, duas salas: a primeira dominada pelo enorme balcão onde é servido aos Domingos o buffet de Cozido à Portuguesa, a segunda mais simpática, com paredes brancas, boa iluminação (e luz natural), mesas de madeira, louça a atirar para o vintage… no fundo estamos num registo de “tasca moderna”, mas como se trata de um projecto de Chef, nota-se o cuidado nos materiais. Uma “tasca moderna” mais sofisticada, se quiserem. Um típico “artificial”, para turista ver.

O serviço é feito por malta jovem e com pinta, como se espera neste tipo de restaurante, onde os clientes são maioritariamente turistas. Não há mal nenhum nisso, o nome do Chef e a zona proporcionam este tipo de cliente. E como a promessa é comida tradicional portuguesa, seria sempre uma boa forma de mostrar a toda a gente aquilo que de bom existe na nossa gastronomia. E escrevo “seria”… porque aquela “artificialidade” que se sente no espaço acontece também na comida.

Nada do que comemos na Cantina do Zé é efectivamente mau… mas praticamente tudo conseguimos comer em restaurantes mais típicos nas ruas à volta, muito melhor a nível de sabor e genuinidade. E também substancialmente mais barato. Pena que os turistas não arrisquem em entrar numa tasca a sério. Enfim…

Começamos por dividir uns Croquetes de Novilho e umas Empadinhas de Alheira, os primeiros melhores que as segundas. Ao mesmo tempo, o Tártaro de Carapau Picante (que, diria eu, não tem assim tanto de comida tradicional portuguesa…), onde a promessa de picante não vem no prato e os pedaços de abacate no meio do peixe dão-lhe um toque adocicado que o conjunto não precisa.

Felizmente, ainda nas entradas, temos um fenomenal Escabeche de Ovos Verdes com Gengibre. O escabeche está maravilhoso, ligeiramente ácido como gostamos, e os ovos verdes são uma delícia! Uma entrada simples mas que sabe a comida de conforto!

Este escabeche fechou bem as entradas, e por isso fomos contentes para o Cozido. A opção buffet tem sempre vantagens e desvantagens: permite-nos tirar só o que queremos e repetir as vezes que quisermos, mas também traz o problema da demora/falta de reposição. Ora, essa desvantagem foi algo que não sentimos na “Cantina do Zé” e no seu Buffet de Cozido à Portuguesa.

O buffet até parece ter bastante variedade, entre enchidos, carnes, legumes e outros acompanhamentos. Até tem um recipiente com caldo do cozido, que faz sempre falta. Mas o problema é quando começamos a fazer comparações com outros cozidos nos restaurantes realmente tradicionais. Um cozido com 4 tipos de carne e 3 tipos de enchidos está um bocado longe daquilo a que estamos habituados numa qualquer tasca às quartas ou aos sábados (os dias são meramente indicativos). Ou seja, aquela variedade que parece muita à primeira vista, deixa de ser depois de enchermos o prato.

Ainda assim, nada a apontar a nível de sabor no “Cozido do Zé”, todos os ingredientes são bons, o fumado das carnes resulta, está tudo no ponto. E é certo que aqui os ingredientes estão cortados de forma menos grosseira, por isso quando os colocamos nos pratos bonitos nos quais nos servimos, este fica um cozido visualmente mais bonito (e melhor nas fotografias). Mas um cozido não se quer bonito, quer-se cheio de muita coisa boa! 

Além do Cozido, na mesa pediram-se outros dois pratos, de uma lista cheia de pratos que reconhecemos como tradicionais mas que depois têm algum twist na sua descrição/composição. Mas pratos que acabam por decepcionar no principal, que é o sabor. O Cachaço de Porco Grelhado, com Migas soltas de couve chinesa (porque a portuguesa era pouco tradicional…), onde a carne vem submersa num molho de feijão preto completamente dispensável. A carne está um pouco seca demais, mas é saborosa. Por outro lado, as migas não só estão insonsas como não têm rigorosamente nada a ver com qualquer tipo de migas que já tenhamos comido antes, nem as alentejanas, nem as ribatejanas... é só um pequeno emaranhado de couve, e numa dose demasiado pequena em comparação com a carne. Ou seja, acabam ao terceiro pedaço de carne comido.

Mas a maior decepção de todas foi mesmo o prato mais simples daqueles que provámos, um prato que pedimos regularmente em restaurantes (e do qual temos excelentes recordações familiares). As Pataniscas com Arroz de Feijão (preto, o que nos faz logo torcer o nariz) são na versão demasiado espalmada, com partes demasiado crocantes (ou seja, sem qualquer conteúdo) e, acima de tudo, pouco interessantes a nível de sabor. Não estão secas nem oleosas e isso já é muito bom, mas não têm sabor nenhum… 🙁 Felizmente vêm acompanhadas de uma maionese de alho e lima que é muito boa e que acabamos por utilizar como creme de barrar. O arroz também não ajuda, ainda que esteja malandrinho, porque o feijão preto não me parece o mais adequado neste contexto…

A decepção (parcial) com os pratos principais baixou as expectativas para as sobremesas, o que acabou por ser positivo. Porque não sendo inesquecíveis, são ligeiramente diferentes dos clássicos portugueses em que se baseiam, e esses pequenos twists acabam por afastá-las de comparações como fizemos nos pratos. O Pudim de Mel e Azeite é saboroso mas o que o torna diferenciador é o acrescentar do Ananás tipo carpaccio, porque cria um contraste muito interessante. Acontece o mesmo com o Toucinho do Céu, que nesta Cantinha traz também um toque de frutos vermelhos, criando novamente um contraste de acidez.

Não sendo um final arrebatador, pelo menos é um final de refeição menos decepcionante. Uma refeição que ficou a cerca de 27€ por pessoa (ou 38€, no meu caso, por causa do cozido). Demasiado caro quando comparado com outros restaurantes tradicionais e ainda mais quando relembramos o que comemos, principalmente a nível de sabor. O que nos parece claramente faltar nesta Cantina é alma, aquela alma que sentimos quando comemos a verdadeira comida portuguesa numa tasca qualquer. É um sabor diferente, que nos sabe a comida familiar, que nos sabe a tradição. Aqui temos as receitas mas faltou aquela mão apaixonada na confecção… parece tudo um pouco “para inglês ver”.

E por isso, depois de tudo isto, é claro que saímos desta Cantina um bocado resignados, porque na realidade já esperávamos este resultado. Não é um restaurante mau, mas basta andar duas ruas para o lado e encontramos tascas ou restaurantes tradicionais com comida efectivamente mais caseira e tradicional, assim como mais baratos. Na nossa (modesta) opinião, uma incursão de um Chef como o José Avillez num registo de comida tradicional só podia ter este tipo de resultado. Porque, por um lado, temos aqueles que vão sempre achar que a comida é demasiado simples para um Chef Michelin; e, por outro lado, há todos aqueles que sabem que há muitas outras opções mais genuínas na zona, onde se come bastante melhor. E bastante mais barato também.

 

Preço Médio: 27€ pessoa (com cerveja)
Informações & Contactos:
Rua dos Arameiros, 15 | 1100-027 Lisboa | 215807625

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